Pedestrianismo no vale do Alva: Rotas de Água

A opinião de Manuel António Brites Salgado
O presente texto incide sobre o interesse e a importância de interpretar o valor da água e da paisagem natural para o turismo e o lazer, designadamente como sendo uma das nossas principais motivações para a nossa investigação e a estruturação de conhecimento sobre os vários tipos de recursos endógenos associados ao territóri
o do vale do Alva e, particularmente, ao rio Alva, que pretendemos que seja cada vez mais valorizado na região do Turismo Centro de Portugal. Constatamos que existem recursos patrimoniais tangíveis e intangíveis neste território de inestimável valor, correspondente à antiga ocupação humana deste território, principalmente associado com as atividades naturais, rurais e culturais e estilos de vida ligados sobretudo aos setores primário e secundário, que deixaram um legado que se encontra abandonado. Trata-se de um território que inclui fronteiras administrativas de cinco concelhos nos quais o Alva se espraia, desde o de Seia até ao de Penacova.
O rio Alva nasce da ribeira da Fervença, em plena encosta sudoeste do Parque Natural da Serra da Estrela, que se estende desde a aldeia do Sabugueiro (a mais alta Aldeia de Montanha), no concelho de Seia, e segue até Porto da Raiva no concelho de Penacova, onde desagua no rio Mondego. O rio Alva começou por escavar um vale de origem glaciar e, mais abaixo, continuou a sua rota sinuosa pela serra da Estrela até chegar próximo do concelho de Oliveira do Hospital. O Alva apresenta uma extensão aproximada a 106 quilómetros tendo, assim, criado um vale de beleza natural muito apreciada pelos visitantes, nomeadamente os estrangeiros, verificando-se que, muitos deles, após a sua visita, escolheram, mesmo, viver no seu território. É evidente que também se encantaram pelas águas claras e frias do Alva, a partir dos terraços exuberantes que envolvem ambos os lados do rio ou dos seus afluentes, e pela projeção da sua visão para observar, com admiração, os horizontes do conjunto de montanhas da Estrela e do Açor, que rodeiam este vale majestoso, sobretudo nos concelhos de Seia e de Oliveira do Hospital.
É este seu enorme potencial turístico que nos leva a equacionar a sustentabilidade e a competitividade deste território de baixa densidade, o que poderá ser um dos motores socioeconómicos mais importantes para o desenvolvimento desta região. Assim, reconhecemos o turismo de natureza como um produto âncora para as estratégias de desenvolvimento regional, nomeadamente pelo desenvolvimento das rotas pedestres, existentes e as potenciais, bem como pelo interesse de outras diversas atividades associadas ao lazer no rio. É necessário começar com um inventário rigoroso dos recursos locais para entender o seu potencial turístico a nível regional, uma primeira etapa que é essencial para a definição da importância relativa dos vários produtos turísticos com interesse neste território. Com esta metodologia, como base do trabalho de campo, poderemos determinar melhor o potencial deste destino turístico e desenvolver a imagem turística desta região, que gostaria, desde já, nomear Alvaland, pois pretende-se que seja uma marca também para o mercado internacional.
Temos a intenção de destacar o interesse de agregar toda a oferta turística dos cinco municípios deste território, nomeadamente com a criação da Grande Rota do Alva (GRA), que poderá ser um projeto estruturante em trabalho de efetiva parceria entre os municípios do Alva. A metodologia de campo é baseada no diagnóstico sobre os percursos pedestres existentes e na sua viabilidade com o intuito de contribuir para uma melhor integração destas rotas, num contexto sub-regional. Essa estratégia poderia ajudar a desenvolver decisivamente o pedestrianismo e contribuir para a sua comercialização e marketing a nível internacional, sobretudo para o nicho de mercado com enorme apetência para estas experiências de emersão na natureza.
Os produtos turísticos a dinamizar num dado território podem ser diferenciados, de acordo com as potencialidades dos seus recursos endógenos. Assim, consideramos necessário definir as melhores políticas setoriais e assumir as estratégias mais adequadas com vista a um desenvolvimento sustentável e competitivo, quer a nível local, quer regional. Assim, consideram-se, neste estudo, os seguintes objetivos: avaliar a oferta turística do vale do Alva com o principal intuito de promover produtos exclusivos dirigidos a nichos de mercado, que possam assumir uma projeção nacional e internacional; proceder a uma inventariação dos principais recursos patrimoniais existentes com vista ao conhecimento do seu potencial turístico e a tornar possível a estruturação deste “novo” produto turístico; escolher os recursos patrimoniais que podem determinar a vocação e a imagem desta região de destino; promover o desenvolvimento de um “novo” produto turístico de excelência (turismo de natureza), que garanta uma dinâmica de rede a nível regional; e analisar a complementaridade deste “novo” produto com a lógica de rede do turismo de aldeia (Aldeias do Alva), que envolve já os três projetos consolidados da ADIRAM, ADXTUR e da AHP, conforme foi discutido no número anterior do jornal Letras do Alva.
Pretende-se construir uma análise SWOT consistente com vista a diagnosticar a situação da envolvente interna neste território de baixa densidade e estudar as oportunidades e as ameaças da envolvente externa num contexto regional e nacional. Pretende-se, assim, compreender o contributo deste produto turístico para o desenvolvimento socioeconómico e cultural deste território do interior do Centro de Portugal. Para este efeito observa-se que a metodologia, de cariz mais qualitativo e exploratório, considera em particular a perspetiva dos representantes autárquicos no território em estudo, que são responsáveis pela gestão e valorização do património edificado, em particular daquele que tem interesse para caracterizar atividades socioeconómicas relevantes.
Acreditamos que o modelo de desenvolvimento turístico sustentável em áreas rurais exige às organizações existentes que partilhem objetivos, atividades e recursos, de forma a conseguir o máximo proveito com o mínimo de custo e esforço. Cremos que a sustentabilidade do turismo passará pela satisfação das necessidades das populações locais e dos turistas, simultaneamente, no presente e para o futuro, bem como as dos agentes da indústria turística. A importância crescente do turismo em regiões de cariz rural é estruturante para a valorização dos recursos naturais, culturais, patrimoniais e humanos. Estas realidades parecem indiscutíveis e traduzem-se em preocupações crescentes face à conservação dos recursos patrimoniais, que serão um ponto forte a potenciar com vista a combater a desertificação crescente de territórios periféricos. Assim, considera-se que o turismo de natureza é um produto estruturante para esta região que deve ter sempre presente, designadamente, as suas características endógenas eminentemente naturais e rurais.
O turismo necessita de um planeamento e gestão mais eficazes, em regra, com vista à utilização mais racional dos recursos, que garanta a sua preservação para as gerações futuras num compromisso de desenvolvimento sustentável, mas também a sua valorização com vista a promover um ambiente socioeconómico necessariamente mais atrativo e competitivo. A gestão participativa e integrada é uma ferramenta necessária para envolver todos os atores do turismo nesta região. A caracterização deste destino turístico é fundamental para adquirir um conhecimento a nível regional e consequente afirmação nacional e internacional, que tem por base uma estratégia de reconhecimento e valorização do potencial de produtos turísticos emergentes. A articulação em rede, no contexto regional, pode contribuir para a coesão das visões municipais e pautar as reflexões com vista a melhorar o desempenho do destino. Sabemos que se pode tratar de um rendimento oportuno para os investidores locais e de emprego para os residentes, podendo assumir uma visão e atuação estratégica para a região, o que implicará uma gestão articulada no território dos cinco municípios em apreço, analisando o potencial ainda “adormecido” do turismo de natureza.

Este pressuposto do valor e da necessidade da GRA para a região também é assente numa ideia nascida no seio da Associação Amigos da Serra da Estrela, que tornou realidade a Grande Rota do Zêzere (GRZ) e constitui uma boa prática, que só foi possível através do trabalho conjunto de um consórcio liderado pela ADXTUR- Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto, em parceria com todos os Municípios por onde o rio passa. Neste caso acreditamos e apostamos no papel da ADIRAM para liderar este processo de estruturação da GRA, que merece ser um projeto turístico a implementar no terreno, pelo que ficaremos atentos e exigentes em relação ao que vier a ser assumido.

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