O
presente texto incide sobre o interesse e a importância de interpretar o valor
da água e da paisagem natural para o turismo e o lazer, designadamente como
sendo uma das nossas principais motivações para a nossa investigação e a
estruturação de conhecimento sobre os vários tipos de recursos endógenos associados
ao território do vale do Alva e, particularmente, ao rio Alva, que pretendemos
que seja cada vez mais valorizado na região do Turismo Centro de Portugal. Constatamos
que existem recursos patrimoniais tangíveis e intangíveis neste território de
inestimável valor, correspondente à antiga ocupação humana deste território,
principalmente associado com as atividades naturais, rurais e culturais e
estilos de vida ligados sobretudo aos setores primário e secundário, que
deixaram um legado que se encontra abandonado. Trata-se de um território que
inclui fronteiras administrativas de cinco concelhos nos quais o Alva se
espraia, desde o de Seia até ao de Penacova.
O
rio Alva nasce da ribeira da Fervença, em plena encosta sudoeste do Parque
Natural da Serra da Estrela, que se estende desde a aldeia do Sabugueiro (a
mais alta Aldeia de Montanha), no concelho de Seia, e segue até Porto da Raiva
no concelho de Penacova, onde desagua no rio Mondego. O rio Alva começou por escavar
um vale de origem glaciar e, mais abaixo, continuou a sua rota sinuosa pela
serra da Estrela até chegar próximo do concelho de Oliveira do Hospital. O Alva
apresenta uma extensão aproximada a 106 quilómetros tendo, assim, criado um
vale de beleza natural muito apreciada pelos visitantes, nomeadamente os estrangeiros,
verificando-se que, muitos deles, após a sua visita, escolheram, mesmo, viver no
seu território. É evidente que também se encantaram pelas águas claras e frias
do Alva, a partir dos terraços exuberantes que envolvem ambos os lados do rio
ou dos seus afluentes, e pela projeção da sua visão para observar, com admiração,
os horizontes do conjunto de montanhas da Estrela e do Açor, que rodeiam este
vale majestoso, sobretudo nos concelhos de Seia e de Oliveira do Hospital.
É
este seu enorme potencial turístico que nos leva a equacionar a
sustentabilidade e a competitividade deste território de baixa densidade, o que
poderá ser um dos motores socioeconómicos mais importantes para o
desenvolvimento desta região. Assim, reconhecemos o turismo de natureza como um
produto âncora para as estratégias de desenvolvimento regional, nomeadamente
pelo desenvolvimento das rotas pedestres, existentes e as potenciais, bem como pelo
interesse de outras diversas atividades associadas ao lazer no rio. É
necessário começar com um inventário rigoroso dos recursos locais para entender
o seu potencial turístico a nível regional, uma primeira etapa que é essencial
para a definição da importância relativa dos vários produtos turísticos com
interesse neste território. Com esta metodologia, como base do trabalho de
campo, poderemos determinar melhor o potencial deste destino turístico e desenvolver
a imagem turística desta região, que gostaria, desde já, nomear Alvaland, pois
pretende-se que seja uma marca também para o mercado internacional.
Temos
a intenção de destacar o interesse de agregar toda a oferta turística dos cinco
municípios deste território, nomeadamente com a criação da Grande Rota do Alva (GRA),
que poderá ser um projeto estruturante em trabalho de efetiva parceria entre os
municípios do Alva. A metodologia de campo é baseada no diagnóstico sobre os
percursos pedestres existentes e na sua viabilidade com o intuito de contribuir
para uma melhor integração destas rotas, num contexto sub-regional. Essa
estratégia poderia ajudar a desenvolver decisivamente o pedestrianismo e contribuir
para a sua comercialização e marketing a nível internacional, sobretudo para o
nicho de mercado com enorme apetência para estas experiências de emersão na
natureza.
Os
produtos turísticos a dinamizar num dado território podem ser diferenciados, de
acordo com as potencialidades dos seus recursos endógenos. Assim, consideramos
necessário definir as melhores políticas setoriais e assumir as estratégias
mais adequadas com vista a um desenvolvimento sustentável e competitivo, quer a
nível local, quer regional. Assim, consideram-se, neste estudo, os seguintes
objetivos: avaliar a oferta turística do vale do Alva com o principal intuito
de promover produtos exclusivos dirigidos a nichos de mercado, que possam
assumir uma projeção nacional e internacional; proceder a uma inventariação dos
principais recursos patrimoniais existentes com vista ao conhecimento do seu
potencial turístico e a tornar possível a estruturação deste “novo” produto
turístico; escolher os recursos patrimoniais que podem determinar a vocação e a
imagem desta região de destino; promover o desenvolvimento de um “novo” produto
turístico de excelência (turismo de natureza), que garanta uma dinâmica de rede
a nível regional; e analisar a complementaridade deste “novo” produto com a
lógica de rede do turismo de aldeia (Aldeias do Alva), que envolve já os três
projetos consolidados da ADIRAM, ADXTUR e da AHP, conforme foi discutido no
número anterior do jornal Letras do Alva.
Pretende-se
construir uma análise SWOT consistente com vista a diagnosticar a situação da
envolvente interna neste território de baixa densidade e estudar as
oportunidades e as ameaças da envolvente externa num contexto regional e nacional.
Pretende-se, assim, compreender o contributo deste produto turístico para o
desenvolvimento socioeconómico e cultural deste território do interior do
Centro de Portugal. Para este efeito observa-se que a metodologia, de cariz
mais qualitativo e exploratório, considera em particular a perspetiva dos
representantes autárquicos no território em estudo, que são responsáveis pela
gestão e valorização do património edificado, em particular daquele que tem
interesse para caracterizar atividades socioeconómicas relevantes.
Acreditamos
que o modelo de desenvolvimento turístico sustentável em áreas rurais exige às
organizações existentes que partilhem objetivos, atividades e recursos, de
forma a conseguir o máximo proveito com o mínimo de custo e esforço. Cremos que
a sustentabilidade do turismo passará pela satisfação das necessidades das
populações locais e dos turistas, simultaneamente, no presente e para o futuro,
bem como as dos agentes da indústria turística. A importância crescente do
turismo em regiões de cariz rural é estruturante para a valorização dos
recursos naturais, culturais, patrimoniais e humanos. Estas realidades parecem
indiscutíveis e traduzem-se em preocupações crescentes face à conservação dos
recursos patrimoniais, que serão um ponto forte a potenciar com vista a
combater a desertificação crescente de territórios periféricos. Assim, considera-se
que o turismo de natureza é um produto estruturante para esta região que deve
ter sempre presente, designadamente, as suas características endógenas
eminentemente naturais e rurais.
O
turismo necessita de um planeamento e gestão mais eficazes, em regra, com vista
à utilização mais racional dos recursos, que garanta a sua preservação para as
gerações futuras num compromisso de desenvolvimento sustentável, mas também a
sua valorização com vista a promover um ambiente socioeconómico necessariamente
mais atrativo e competitivo. A gestão participativa e integrada é uma
ferramenta necessária para envolver todos os atores do turismo nesta região. A
caracterização deste destino turístico é fundamental para adquirir um
conhecimento a nível regional e consequente afirmação nacional e internacional,
que tem por base uma estratégia de reconhecimento e valorização do potencial de
produtos turísticos emergentes. A articulação em rede, no contexto regional,
pode contribuir para a coesão das visões municipais e pautar as reflexões com
vista a melhorar o desempenho do destino. Sabemos que se pode tratar de um
rendimento oportuno para os investidores locais e de emprego para os
residentes, podendo assumir uma visão e atuação estratégica para a região, o
que implicará uma gestão articulada no território dos cinco municípios em
apreço, analisando o potencial ainda “adormecido” do turismo de natureza.
Este
pressuposto do valor e da necessidade da GRA para a região também é assente
numa ideia nascida no seio da Associação Amigos da Serra da Estrela, que tornou
realidade a Grande Rota do Zêzere (GRZ) e constitui uma boa prática, que só foi
possível através do trabalho conjunto de um consórcio liderado pela ADXTUR-
Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto, em parceria com
todos os Municípios por onde o rio passa. Neste caso acreditamos e apostamos no
papel da ADIRAM para liderar este processo de estruturação da GRA, que merece
ser um projeto turístico a implementar no terreno, pelo que ficaremos atentos e
exigentes em relação ao que vier a ser assumido.
Manuel António Brites Salgado
Professor Universitário
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