CORREIO DOS LEITORES. Seia "ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS - UMA REFLEXÃO"

SEIA
Ainda as eleições autárquicas em Seia 
CORREIO DOS LEITORES
Recebemos na nossa caixa postal o pedido de publicação da seguinte reflexão sobre os resultados das autárquicas em Seia.

"No passado dia 1 de Outubro teve lugar mais um ato eleitoral para os órgãos autárquicos, tendo os senenses eleito um «novo» executivo camarário, bem como uma nova Assembleia Municipal, e novas Assembleias de Freguesia.
ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS - UMA REFLEXÃO
Apurados os resultados, e para nos centrarmos apenas nos totais, verificamos que, na eleição da Câmara Municipal, ocorreu nova indisputada vitória do Partido Socialista, que obteve 52,35% dos sufrágios e 7.232 votos, elegendo 5 vereadores, seguindo-se o PPD/PSD com 17,23% e 2.380 votos, tendo logrado eleger 1 vereador, a força dita independente Juntos Pela Nossa Terra, com 15,37% e 2.124 votos, tendo logrado eleger 1 vereador, e, por fim o PCP-PEV com 4,90% e 677 voto e CDS-PP o 3,11% e 430 votos, não tendo estas duas forças políticas representações no executivo.
No que respeita à Assembleia Municipal, o cenário é quase idêntico, com o PS a obter 50,25% dos votos, com um total de 6.943 votos e assegurando 13 mandatos, seguido do PPD/PSD com 18,10%, correspondentes a 2.501 votos e 5 mandatos eleitos, o grupo de cidadãos Juntos Pela Nossa Terra obteve 14,46% e 1.998 votos, com 3 mandatos eleitos, seguido do PCP-PEV com 6,30%, 871 votos e 1 mandato, e por último o CDS-PP com 3,39%, 468 votos e sem mandatos eleitos.
No total das Assembleias de Freguesia, surge novamente em primeiro lugar o PS com 46,80%, 6.466 votos e 85 mandatos, seguido do PPD/PSD com 22,02%, 3.042 votos e 36 mandatos, as diversas candidaturas independentes com 18,09%, 2.499 votos e 36 mandatos, seguidas do PCP-PEV com 4,26% com 589 votos e um mandato, tendo o CDS-PP obtido 1,87%, com 258 votos e sem qualquer mandato. Um dado igualmente importantíssimo é o facto de nas três eleições a soma dos votos brancos e nulos ter alcançado quase 1.000 votos e cerca de 7% dos sufrágios.
Ao olharmos para os resultados, o que se nos destaca à primeira vista é a vitória folgada do Partido Socialista, que mantém um executivo camarário com 5 vereadores, como vinha sucedendo, mantendo igualmente os 13 mandatos que já vinha tendo na Assembleia Municipal, e tendo apenas perdido um mandato em Assembleias de Freguesia, largamente compensado pela conquista de 18 das 21 Juntas de Freguesias do Concelho, ficando o PSD confinado à junta de Girabolhos, que logrou manter pela estreita margem de 7 votos.
Por outro lado, também é por demais evidente o resultado negativo do PSD, que obtém apenas cerca de 2.500 votos para os órgãos municipais, quase metade do que havia obtido nas eleições de 2013, em que havia perdido cerca de 2.000 votos face a 2009. Quanto a mantados, os sociais-democratas elegeram 1 vereador, tendo assim perdido 50% da sua representação no executivo camarário, sendo menos gravoso o resultado para a Assembleia Municipal, em que o PSD obteve 5 mandatos isolado, tendo perdido apenas 2 mandatos face a 2009, quando concorreu coligado com o CDS-PP.
Mais pesado é o resultado a nível das Assembleias de Freguesia, em que o PSD perde 9 dos 45 mandatos que detinha em 2013, ou seja, 20% dos seus eleitos, que transitaram para grupos de cidadãos ou para o PS, sendo a força política que indiscutivelmente mais foi penalizada nas urnas, ficando reduzido a 1 junta de freguesia, tendo perdido Santiago para independentes, e Sandomil e Sabugueiro para o Partido Socialista.
Deixando de lado as restantes forças políticas, cujos resultados são menos relevantes, olhemos para as três candidaturas mais votadas. Para explicar os resultados, não podemos deixar de ter em conta circunstâncias que muito contribuíram para o resultado do Partido Socialista. Os bons índices económicos obtidos sob o mandato do Governo liderado pelo socialista António Costa e popularidade do mesmo, que nacionalizou a leitura dos resultados, contribuíram grandemente para a vitória do PS, tanto em Seia como no país. A isto soma-se a fraqueza a nível nacional do PSD, que tem tido grande dificuldade em afirmar-se após a subida ao poder da dita «geringonça», com uma liderança claramente debilitada e uma grande necessidade de renovação, que naturalmente também terão afetado os sociais-democratas em Seia.
Mas muito mais importantes para o resultado foram as circunstâncias políticas próprias do concelho. Se há muito o PS tem regido os destinos de Seia, não é menos certo que a própria governação socialista se encontra algo desgastada pelo evidente fraco desenvolvimento económico do concelho, manifestando os eleitores certo desejo de mudança. Bastará dizer que, não obstante a diminuição de eleitores decorrente do desgraçado envelhecimento da população e da desertificação, resultantes de políticas desastrosas para o mundo rural incrementadas por tantos governos ao longo destes 43 anos de regime democrático.
Nestas eleições, só para órgãos municipais, o PS perdeu entre 2 a 3% de votos face a 2013, cerca de 500 votos, que se disseminaram pelas candidaturas da área do centro-direita, cuja soma é superior em cerca de 800 votos ao resultado de 2013, em que o PSD concorreu coligado com o CSD-PP, sendo menor o desgaste do PS e dos demais partidos em sede de Freguesias.
O fator decisivo nestas eleições, como indicam claramente os resultados, foi claramente a situação do PSD em Seia, que se viu confrontado com uma candidatura para os órgãos municipais que, não obstante se designar independente, podemos qualificar sem qualquer conotação negativa como de «falsos independentes», ou, se preferirmos de «dissidentes» do PSD, pois tal candidatura foi protagonizada por diversos antigos dirigentes do PSD, que lideraram os sociais democratas em muitas ocasiões aos longos dos anos, e que inclusive protagonizaram várias derrotas autárquicas do PSD, nomeadamente a já dura derrota de 2013. Esta divisão terá resultado de eventuais divergências internas no PSD de Seia, nomeadamente quanto a escolhas autárquicas ou no que respeita à condução do partido em geral.
A divisão dos sociais democratas claramente impediu o descontentamento de desencadear maiores alterações nos órgãos autárquicos, sendo no entanto de destacar como um dado positivo para algumas das campanhas do PSD que a bandeira social-democrata superou tal candidatura em votos, tendo sido minimizados os danos de tal divisão ao nível da bancada do PSD na Assembleia Municipal, que, sem o CDS-PP e a candidatura independente, consegue obter 5 lugares.
Porventura, a mera força do símbolo do PSD, partido histórico da democracia portuguesa, e a lealdade da maioria do seu eleitorado impediram que a candidatura dita independente esvaziasse o mesmo por completo, como era claramente o seu propósito em termos de obtenção de força
eleitoral. De notar também que o PSD se defrontou com a forte implantação no concelho dos candidatos originários da sua área no concelho, e que pela primeira vez em muitos anos, se viram arredados de maior papel nos destinos do partido e que evidentemente fizeram uso, com mais ou menos sucesso, da experiência de muitos anos de contacto com as populações e do seus antigos apoios ao nível partidário.
A dificuldade do PSD em capitalizar tal o crescente desejo de mudança dos senenses é evidentemente devida à própria dificuldade interna do PSD em unir a totalidade do seu eleitorado, e, sobretudo em reforçar e renovar as suas lideranças e as suas estratégias face à enorme base de apoio que o PS vem cimentando no concelho.
Os maiores problemas do PSD foram claramente sentidos ao nível da candidatura à Câmara Municipal, onde a percentagem de votos perdida para os independentes oriundos da sua área foi maior e a perda relativa de representação foi de 50%, um dado de que nos apercebemos claramente se tivermos em conta os resultados da União de Freguesias de Seia, S. Romão e Lapa dos Dinheiros. Nesta freguesia, na eleição para a Câmara Municipal, o Partido Social Democrata foi superado pelo grupo de cidadãos JPNT por 52 votos, enquanto que, na mesma freguesia, na eleição para a Assembleia Municipal foi o PSD que derrotou o referido grupo com uma diferença de quase 100 votos. Ou seja, o eleitorado distinguiu claramente os atos eleitorais em que pesava mais o símbolo partidário do que a equipa, mantendo certa confiança no PSD na Assembleia Municipal, mas penalizando grandemente a candidatura ao nível do executivo municipal, que lhe mereceu na sede de concelho menos confiança do que os independentes no que respeita ao executivo.
Assim, o PSD de Seia está confrontado com provavelmente o seu pior resultado de sempre no concelho, sobretudo ao nível da Câmara Municipal, a que se junta a quase destruição do PSD nas freguesias do concelho, com a perda de 3 das 4 Juntas de Freguesia antes conquistadas pelo mesmo. Tanto ao nível nacional como ao nível concelhio, caberá às lideranças partidárias e aos militantes fazerem a sua reflexão sobre os resultados, ponderando o que falhou neste ato eleitoral e quais os reflexos internos que este resultado deverá ter.
Texto : Sara Santos"

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