Nesta altura do ano os incêndios ainda nos fustigam e trazem à tona
vários problemas. Alguns, de todos já conhecidos e outros indiretos mas em
consequência dos primeiros.Depois do plano de reflorestamento de 1938 e da
valorização da floresta pelo Estado Novo que tinha até guardas florestais, para
os quais foram construídas casas e para as suas famílias diretas, assiste-se
hoje, quase 80 anos passados, a um retrocesso civilizacional com prejuízos a
diversos níveis uma vez que se privilegia o combate em detrimento da
prevenção.
Exemplo claro deste princípio é a inscrição no OE das
respectivas verbas e que marcam a orientação de cada governo para o assunto. É
o OE que marca a política, a atuação do Estado no gasto do dinheiro dos
contribuintes. É mais que sabido a diferença alarmante entre a primeira verba e
a segunda e como consequência, os privados querem lucrar com a adjudicação que
lhe foi feita e os incêndios aparecem.
Não quero com isto dizer que são eles
que os ateiam, mas beneficiam da ainda grande força que os pirómanos têm na nossa
sociedade e da possibilidade de se vender árvores semi queimadas. Os pirómanos
não são apanhados ou se são, voltam em liberdade (mesmo que com uma medida de
coação), para o local do crime.
Nos dias de hoje, a agricultura de subsistência
foi abandonada dado o preço aparentemente baixo com que nos chegam os alimentos
dos países vizinhos (maioritariamente espanhóis onde o uso de fitofármacos é
muito mais liberal que cá), e a necessidade de usar a biomassa florestal deixou
de existir para a manutenção dos animais que, na maioria dos casos, convivia
com os donos no "andar de baixo".
A biomassa foi assim desvalorizada
e os proprietários deixaram de efetuar a tão necessária limpeza por não haver
uso para ela. A culpa não é do eucalipto porque os das grandes empresas de
papel não ardem assim tanto, mas sim da falta de limpeza.No meio de tudo isto,
era bom que se invertesse a tendência deste tema.
Não digo voltar aos animais
no "andar de baixo" mas valorizar a biomassa de forma sustentável e
quiçá em forma de composto. Era bom o regresso dos guardas florestais que
podiam até ter recompensas por baixos níveis de incêndios e a implementação de
boas práticas na sua zona de atuação. Estes guardas florestais seriam também
úteis na descoberta e destruição dos ninhos de Vespa velutina que dizima
apiários inteiros por vezes em conjunto com a Vespa Europeia. A apicultura
encontra-se cada vez mais ameaçada e, o que é para mim, o melhor mel do mundo,
também! A par da falta de polinização de culturas e das suas consequências.
Era também bom, que as leis penalizassem os
incendiários e os obrigassem a tratamento psiquiátrico.Era bom que a verba de combate fosse bem menor
que a da prevenção, que a Força Aérea (já paga por todos os que pagam
impostos), fosse responsável pelo combate. Era bom. Mas, se por motivos
ideológicos ou porventura de ganhos paralelos na adjudicação ou nos dividendos
das empresas de combate, estas tiverem de se manter, então que deixem de ser de
combate para ser de limpeza da floresta. Rapidamente, e à boa maneira tuga, a
biomassa ia passar a ser muito valiosa e o país ia voltar a ter muita floresta.
Até aposto que a minha Serra ia voltar a ter muitos pinheiros e outras espécies
nativas.
Os incêndios têm também outra consequência: potencia o aquecimento global e as suas consequências. Mesmo que me digam que sabe muito bem ir à praia em Outubro, não se admirem quando, por falta de chuva o preço dos alimentos subir, nomeadamente do mel, fruta e hortícolas. Produzir carne e leite ficará mais caro.
Era bom a mudança, quer de mentalidade, quer de
políticas agrícolas. Se a mudança não se der, rapidamente Portugal se
transformará num deserto, porque não há turismo que resista apenas com as
praias. São precisas florestas e a sua valorização e manutenção, caso contrário
virá o deserto porque pelos vistos já fomos pântano...
Gorete Fonseca

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